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A fidelidade no trabalho da tradução de textos literários

by on fevereiro 12, 2015

Muitas vezes nos encantamos com os maiores clássicos da literatura mundial, mas nunca nos damos conta do processo que essas referências literárias levaram até chegar a nós. Porventura, quem nunca perdeu a hora lendo os grandes clássicos de Dostoiévski ou as mais célebres obras dos grandes filósofos gregos, ou mesmo as fascinantes histórias da literatura oriental? Teríamos tido contato com obras imortais e marcantes na história da humanidade se não fosse pela arte da tradução? Partindo dessa perspectiva, pretende abordar aqui a discussão referente à problemática da fidelidade no exercício da tradução, bem como refletir sobre a equivalência textual no trabalho do tradutor.

Uma discussão sobre equivalência

Se formos olhar a palavra ‘equivalência’ no dicionário, teremos esta definição: “qualidade do que é equivalente”, ou seja, que, uma vez postos em comparação dois fatos, ou situações, ambos sejam simétricos entre si, isto é, apresentem uma relação de igualdade lógica, de tal forma que um deles só seja verdadeiro se o outro também o for. Aplicando essa definição etimológica no âmbito da tradução, podemos comprovar uma das maiores discussões entre especialistas em tradução e em linguística de modo geral, isso porque alguns fatores pragmáticos interferem no fato de se conseguir chegar à unidade, à homogeneidade, enfim, à equivalência (em seu significado literal) entre o texto traduzido e o texto original.

Conforme la erudita da tradução Katharina Reiss, é possível trabalhar a ideia de equivalência em duas instâncias: a ‘equivalência formal’ e a ‘equivalência dinâmica’. A equivalência formal admite a transmissão simétrica de um texto fonte (ou original) para um texto traduzido. Aqui, o critério mais importante é a preservação da forma canônica do gênero textual e a tradução literal das palavras. Por outro lado, a equivalência dinâmica se preocupará em garantir não só a proximidade linguística da estrutura e das palavras, mas a salvaguardar o sentido da mensagem, não hesitando, portanto, modificar e adaptar o que for necessário para isso, transformando tradutor não em um profissional da equivalência de textos e revisor de normas, mas, antes e sobretudo, em coautor.

Partindo desses pressupostos, faz-se necessário analisar a equivalência no trabalho da tradução. Em primeiro lugar, parece ser inegável afirmar que toda tradução feita por um tradutor competente, por mais dinâmica que seja, permanece fiel ao texto fonte, seja por meio de uma equivalência de ideia, seja por equivalência de literalidade. Dependerá do tradutor optar, no exercício de seu trabalho, que caminho de equivalência ele vai seguir: ou substituir o material textual de uma língua pelo material equivalente em outra língua; ou fazer uma correspondência entre as unidades linguísticas, independentemente de qualquer ideia de conteúdo.

Fidelidade ao texto, fidelidade ao sentido

Decerto, se se pensar a tradução como um processo de recriação ou transformação, como se poderá falar em fidelidade? É necessário, antes de tudo, ter a consciência de que o trabalho do tradutor, antes de mais nada, é de coautoria. Ele, com sua experiência de vida, com seu conhecimento de mundo, com seu domínio do assunto, revelará, em uma língua diferente daquela do texto original, o conteúdo que será traduzido. É importante ter essa visão de fidelidade, como preservação da ideia original, do assunto, que é a própria essência, todavia, nada impede que o caminho pelo qual o tradutor expresse essa ideia na língua-meta (língua para a qual se traduz) seja dinâmico e variável.

Sabemos que, frequentemente, no trabalho do tradutor, as intervenções diretas e significativas não são só aconselhadas, como tantas vezes necessárias, pois, dependendo do gênero do texto fonte, algumas tentativas de traduções são praticamente ineficazes para a total compreensão do público para o qual se está traduzindo, como em textos poéticos e expressões idiomáticas (aqui também se somam os ditos populares ou outras particularidades regionais e folclóricas, muito próprias de uma cultura particular). Há quem defenda o fato de ser impossível uma tradução de Os Lusíadas, de Camões, ou de A Divina Comédia, de Dante, para uma língua eslava ou qualquer uma das orientais, sem trair os seus autores, afirmando categoricamente que a tradução que se obtém, para sair bem, tem forçosamente de permitir libertar o tradutor das palavras do autor e, se aquele não se apropriar inteiramente do seu pensamento, as palavras que elegeu não irão exprimir corretamente a ideia original, tornando, portanto, a obra traduzida numa tentativa falida e fracassada, e no tradutor, um exímio traidor.

Mas o que é, portanto, a fidelidade, se se são permitidas mudanças, às vezes, tão significativas? A fidelidade na tradução não se concebe como uma “equivalência” entre palavras e textos, mas, se sua ideia for admitida, será como uma tentativa de fazer que o texto-alvo funcione na cultura-alvo do modo como funciona na cultura-fonte. Por isso, os tradutores podem ser fiéis quando recuperam aquilo que querem os que subsidiam suas traduções.

Contemplando todo esse panorama, não se pode ter outra definição para o trabalho da tradução literária senão que é uma arte primorosamente trabalhada e que deve ser honrosamente reconhecida, porque todo tradutor, longe de ser um traidor, é um profissional competente que dedica seu tempo e suas energias para conseguir transmitir, com fidelidade (aqui já sabemos o sentido de fidelidade na tradução), para outra língua, submetida às realidades culturais de um povo, o sentido essencial e original do texto traduzido, embora que, eventualmente, sejam necessárias algumas intervenções diretas no texto fonte, mas sempre feitas com a intenção de salvaguardar o que é tido como principal: o sentido.

Sem esses “traidores”, quantas riquezas incomensuráveis teria perdido a humanidade ao longo de todos esses séculos de escrita. Embora haja alguém com uma fabulosa capacidade de leitura em diversos idiomas, nunca essa mesma pessoa poderia afirmar ter lido livros escritos nas mais diversas línguas. O que seria da cultura literária de um povo, da construção de seu pensamento crítico se não se tivesse a inegável e louvável ajuda das traduções literárias?

Ao longo desta reflexão, foi considerado como tradutor o profissional da arte de traduzir que desempenha seu ofício com liberdade responsável e fidelidade ao essencial, e este tradutor, de maneira alguma, deverá ser tomado como traidor se, em algumas vezes, as exigências contextuais lhe pedem uma intervenção direta e significativa na sua tradução. Afinal de contas, a fidelidade não se prende ao sentido dos vocábulos equivalentes, nem à escolha das palavras mais acabadas, nem mesmo, diria, à imitação da estilística, mas ao sentido original que é a essência do texto e que, acima de tudo, deve ser salvaguardado pelo tradutor.

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