Issue 6 |

Nouvelle língua, nuova anima: O Latim na aprendizagem das línguas românicas

by on fevereiro 27, 2016

Atualmente, percebemos que muitas pessoas estão procurando aprender novas línguas, seja por motivos afetivos (por gostar da cultura de um país, ou da sonoridade de uma língua, ou mesmo do sistema gramatical desta), ou por motivos de necessidade, como as exigências de um emprego, os estudos de pós-graduação ou simplesmente para facilitar a comunicação com pessoas estrangeiras. A partir dessas motivações, podemos perceber um crescente número de escolas de línguas ou mesmo sites que funcionam como cursos de línguas à distância ou mesmo que proporcionam o encontro e a comunicação entre pessoas de diversos lugares do mundo. A partir desse crescente interesse, a questão do poliglotismo tem se tornado um tema relevante para se discutir.

Dentre os diversos mecanismos de aprendizagem de línguas estrangeiras, apresentamos aqui um método que estuda a evolução, ao longo do tempo, de uma língua, a partir da comparação desta língua com outras da mesma família, trata-se do método histórico-comparativo, que se revela bastante eficaz, no que diz respeito a aprender mais de uma língua simultaneamente, como ocorre na passagem do latim para as línguas românicas.

Embora tal análise comparativa dialogue com a fonética (ramo da Linguística que estuda a realização dos sons), a morfologia (área da Linguística que estuda a organização das palavras), a sintaxe (parte dos estudos linguísticos que se ocupa da estrutura e organização de uma frase) e a semântica (refere-se ao sentido), este artigo se restringe a apresentar como o aspecto fonético-semântico na evolução do latim (lat.) para as línguas românicas, em particular, o português (port.), o italiano (it.), o francês (fr.) e o espanhol (esp.), é, de fato, um conhecimento valioso para quem deseja aprender essas línguas ao mesmo tempo. Além disso, pretendemos mostrar aqui que o acompanhamento dos fenômenos fonéticos entre o latim e as línguas românicas serve não só para o estímulo à retenção de uma palavra, no âmbito da fonética, da ortografia (como os sons de uma palavra são representados pelas letras) e da semântica, mas também para a ampliação do universo cultural e linguístico do aprendiz.

Por se contemplar aqui a evolução de línguas ao longo do tempo, deixamos claro que a nossa reflexão se baseará em uma área da Linguística chamada Filologia, compreendida como a pesquisa científica do desenvolvimento e das características de um povo ou de uma cultura com base em sua língua ou em sua literatura.

Embora a tradição filológica remonte aos gregos alexandrinos, a Filologia é atualmente pouco praticada, o que faz, por um lado, com que muitos a reduzam à ciência do significado dos textos e à edição crítica destes, e, por outro lado, com que poucos a conheçam no sentido de pesquisa científica do desenvolvimento e das características de um povo ou de uma cultura com base em sua língua ou em sua literatura, para não falar de um menor número ainda daqueles que nem desconfiam que tal ciência milenar possa ser útil na aquisição de outras línguas de uma mesma família.

Para mostrar como o método histórico-comparativo, que é um dos métodos da do estudo filológico, pode auxiliar na aquisição do vocabulário português, italiano, francês e espanhol, partindo-se sempre do latim, citaremos um fenômeno fonético e suas respectivas alterações, antes da configuração fonético-ortográfica atual das quatro línguas românicas apresentadas aqui.

No que concerne à sequência fonética –ct-, observe-se o seu comportamento fonético entre o latim e as quatro línguas românicas:

Latim (-ct-)Italiano (-tt-)Espanhol (-ch-)Português (-it-)Francês (-it-)
Lacte(m) LatteLecheLeiteLait
Nocte(m)NotteNocheNoiteNuit
Factu(m) FattoHechoFeitoFait
Dictu(m)DettoDichoDitoDit
Lectu(m)LettoLechoLeitoLit
OctoOttoOchoOitoHuit

O italiano apresenta, regular e sistematicamente, a assimilação do –c ao t-, obtendo, respectivamente, a forma –tt- em latte, notte, fatto, detto, letto, otto;Percebe-se, a partir do quadro acima, que, partindo-se sempre do latim, lacte(m), nocte(m), factu(m), dictu(m), lectu(m), octo, há um comportamento sistemático das línguas românicas, em relação à sequência lat. –ct, como confirmam as seguintes cadeias de alteração fonética:

  • O espanhol palataliza a sequência lat. –ct–, representando-a graficamente com ch, como em leche, noche, hecho, dicho, lecho, ocho;
  • O português apresenta a vocalização em i da primeira consoante da sequência lat. –ct–, como se lê em leite, noite, feito, dito, leito, oito;
  • O francês, cuja ortografia é extremamente conservadora, comporta-se como a língua portuguesa, isto é, vocalizando o –c-, da sequência lat. –ct–, em –i-, como se verifica em lait, nuit, fait, dit, lit, huit, embora sua pronúncia atual seja resultado de uma série de alterações fonéticas chamadas metaplasmos.

Como consequência desse resgate fonético, que pôs, em relação histórica e cultural e de modo simultâneo, cinco línguas, o aprendiz já tem assegurado as seguintes duas vantagens didáticas imediatas, na aprendizagem de línguas: 1) o despertar para a conscientização de que há uma sistematicidade, o que sugere que a aquisição de vocabulário pode e deve ser feita de forma lógica; 2) essa relação entre línguas afins torna-se bastante útil, por permitir que o aprendiz perceba que adquirir uma nova língua é, antes de tudo, ampliar seu horizonte cultural. Daí, dessas duas vantagens, é possível se chegar, de modo culturalmente contextualizado, a aquisição de um vocabulário básico.

Para além disso, não é de menor importância a ponte que esse vocabulário básico faz para a sua própria ampliação, no que se refere aos cognatos, partindo-se do latim para as línguas românicas, como se pode perceber a partir do lat. lacte(m), a evolução para o espanhol em: leche, lechada, lechera, mas há outras palavras em espanhol, derivadas do mesmo radical latino, que preservam a escrita lact-, como em lactancia, lactosa, lacteo. Se pegarmos, por exemplo, do lat. factu(m), podemos ter, em português, tanto as palavras feito, perfeito, desfeito, como factual factor, imperfectível, ou mesmo, a partir do lat. dictu(m), podemos ter, em francês, dit, dite, dicter, diction, dictionnaire. Percebe-se, a partir dessas comparações, que, embora as palavras cognatas variem entre a escrita moderna alterada e a escrita erudita (conservando o –ct– do latim), todas elas compartilham o mesmo radical e, portanto, o mesmo significado, então parece ficar claro que o processo de conhecimento lexical a partir do estudo histórico-comparativo amplia consideravelmente o vocabulário das línguas românicas.

Embora o método histórico-comparativo – para não se falar de outros métodos filológicos e da Filologia em si – tenha outras contribuições para a aprendizagem de línguas de uma mesma família, ele nos permite, de modo imediato, identificar e projetar as representações equivalentes nas línguas românicas de uma palavra em latim, favorecendo, assim, a aquisição simultânea de mais de uma língua de mesma origem. Além disso e não menos importante, parece fora de dúvida que conhecer a trajetória histórica e cultural das línguas de uma mesma família, compreendendo os processos de alteração que elas vivenciaram antes de ter o formato que apresentam hoje, é abrir um leque de possibilidades de assimilação e compreensão de outros universos culturais, os quais hão de levar o aprendiz de línguas à ressignificação da sua visão de mundo, pois, como diz um provérbio tcheco, “aprende uma nova língua e adquirirás uma nova alma”.

2 Responses to “Nouvelle língua, nuova anima”

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